O artigo convidado a seguir é da Scarlett Rose, uma cosplayer, atriz, editora e gamer muito conhecida! Ela entrou em contato comigo sobre um artigo a respeito de um JRPG de que gostei muito, então fico feliz em poder compartilhar o trabalho dela com meus leitores maravilhosos.
Confira a biografia e os links dela no final e comente o que achou do artigo. O site do qual ela faz parte, o YourMoneyGeek, tem bons artigos sobre finanças, então dê uma olhada também!
Jogamos muitos videogames como uma fuga temporária da realidade. Alguns deles deixam em nós uma impressão duradoura, que se transforma numa conexão profunda com seus personagens e sua história. Profundo e único ao mesmo tempo, Final Fantasy X está entre os inesquecíveis.
Final Fantasy X tem uma beleza incomparável, tanto no visual de tirar o fôlego quanto na história complexa. O jogo é reconhecido por ser o primeiro JRPG de Final Fantasy com personagens totalmente dublados, além de gráficos incríveis. O que muitos deixaram de mencionar é a profunda complexidade de vários aspectos dessa história brilhante.
Ele não só tinha uma inclinação espiritual, como ia muito além de simples referências religiosas, de formas realmente perspicazes.
A destruição de Zanarkand e a chegada de Sin
A história de Final Fantasy X é contada por Tidus, um astro do esporte da metrópole futurista chamada Zanarkand. Durante uma partida, Tidus é arrastado para outro mundo e se junta à invocadora Yuna e aos amigos dela em sua jornada para salvar o mundo de Spira de um monstro devastador conhecido como Sin. Enquanto seguem rumo à mítica Zanarkand e esbarram na corrupção oculta da sociedade de Spira, Tidus se apega à esperança de um dia encontrar o caminho de volta para casa.

A própria Zanarkand parece bem moderna, com luzes chamativas, uma infinidade de “Machina” (máquinas) e vários detalhes modernos. É realmente um mundo cheio de desejos contemporâneos. Também fica bem claro que Sin chegou a Zanarkand com a intenção de apagar aquele mundo.
Então, o que aconteceu com Zanarkand? As cidades-estado de Bevelle e Zanarkand entraram em guerra por motivos desconhecidos. Bevelle tinha a seu favor uma tecnologia avançada, a machina; Zanarkand tinha a magia antiga de seus invocadores. As armas de Bevelle iam vencer, e com facilidade, então o líder de Zanarkand sacrificou a população que restava na cidade para criar Sin. Sin, de imediato e contra a vontade de todos, se voltou contra Zanarkand e a destruiu, pondo fim à Guerra das Machina. O criador de Sin? O líder de Zanarkand, um homem chamado Yu Yevon.
Os paralelos entre o conceito religioso do que se considera pecado (em inglês, “sin”, ou um ato pecaminoso) e a aversão ao descaso moderno com o mundo espiritual aparecem logo ali, na primeiríssima cena. Foi uma escolha bem ousada colocar um chefe principal chamado Sin trazendo caos e destruição, junto com o mistério em torno do que viria a ser a religião de Yevon.
O que fica ainda mais fascinante é o que acontece depois que Zanarkand é destruída.
Tidus desperta em uma nova realidade
Quando Tidus acorda, ele se vê nas ruínas de um templo, onde monta acampamento. Quando um monstro ataca, um grupo de desconhecidos o salva, entre eles a famosa Rikku. Ela explica que eles são Al Bhed, um povo que usa a tecnologia machina, agora proibida. É aí que você descobre que Zanarkand foi destruída por Sin há 1.000 anos e que agora é considerada um lugar sagrado. Um lugar assim ser considerado sagrado é uma ideia muito interessante, e explico por quê:

Depois que Sin aparece e derruba Tidus do navio, ele acorda numa praia ensolarada e fica feliz ao ver algo familiar: um grupo de ilhéus jogando blitzball. Depois que ele mostra suas habilidades, os ilhéus se juntam ao seu redor, e o líder do grupo, Wakka, explica que Tidus chegou à Ilha de Besaid. Wakka fica inquieto quando Tidus diz que sua cidade natal é Zanarkand e atribui o comportamento dele aos encontros recentes com Sin. Wakka explica que Sin é um monstro que surgiu há 1.000 anos e destruiu as cidades de machina, inclusive Zanarkand, como consequência dos crimes humanos e do uso da machina.
Tidus então viaja com Wakka até o que parece ser uma aldeia muito primitiva, o que é bem curioso, considerando que agora estamos 1.000 anos no futuro. É lá que ele conhece uma invocadora chamada Yuna. Yuna é uma figura sagrada, algo como uma sacerdotisa, sob a igreja de Yevon. Ela vai partir em peregrinação, junto com outros invocadores, para derrotar Sin. Os invocadores também ajudam os mortos enviando seus espíritos para o Além, para que não se transformem em monstros. O Além pode ser visto como a versão deles do Céu ou da vida após a morte, embora no jogo seja tratado mais como o único próximo passo depois da morte.

Nesse começo de jogo já fica claro que o conceito de maquinário moderno, e o uso dele, passou a ser visto como um ato criminoso e profano. A igreja e o mundo moderno estão em conflito, e o medo está sendo usado para manter o poder.
O mundo de Spira agora está dividido entre o presente e o passado. Como o povo de Spira é puxado em duas direções diferentes, pela forte religião de Yevon e pelo desejo dos Al Bhed de explorar a machina, eles percorrem um mundo cheio de descobertas e de crenças sendo questionadas.
A importância da peregrinação e as origens de Yu Yevon
Embora tecnicamente a história seja sobre Tidus, a peregrinação de Yuna em Final Fantasy X é um dos aspectos mais importantes do jogo. O grupo parte para que Yuna vá a cada templo e obtenha as invocações como um sacrifício necessário para derrotar Sin. Pode ser a peregrinação de Yuna, mas muitos dos personagens estão aprendendo e explorando suas próprias crenças e pensamentos, inclusive Tidus.
Mas qual é o propósito dessas peregrinações obrigatórias? Por que elas começaram? Tudo remonta à destruição de Zanarkand e ao fato de Yu Yevon ter sido, na prática, transformado em mártir.
Yu Yevon se tornou a versão de Spira de uma figura de Cristo, num paralelo sutil com os muitos debates sobre quem Jesus realmente foi. O argumento de FFX é: ninguém sabe, e o tempo das perguntas já passou.
Isso nos leva à igreja de Yevon, claramente baseada em Yu Yevon. A Igreja de Yevon acalma a população e mantém sua estrutura de poder insistindo que Sin só vai desaparecer de verdade quando todos tiverem feito a devida expiação seguindo seus ensinamentos. Não se dá nenhuma razão para isso funcionar, muito menos para quando vai funcionar. Ninguém questiona. Eles têm medo demais. A ausência de tecnologia e de educação nesta era exige que o povo simplesmente creia e mantenha a fayth de Yevon.
O paralelo mais explícito em relação a Yu Yevon é a ideia de que o martírio de Jesus criou algo mal compreendido por muitos e mal utilizado por muitos mais. O martírio de Yu Yevon fez o mesmo por um motivo especialmente importante: ele foi inteiramente criado pelo povo.
O líder de Zanarkand, Yu Yevon, sacrificou a população que restava na cidade para criar Sin.
O salvador de Spira é Yevon, e Yevon é Sin, o opressor de Spira.
FFX e sua interpretação da história religiosa
O fim da guerra cria a esperança desesperada de que a guerra não aconteça de novo. A resposta de Final Fantasy Xé o medo, e o medo pode ser explorado. Final Fantasy X pegou o conceito de controle e o colocou nas mãos de Yevon. FFX defende que toda a religião de Yevon é um acidente: uma estranha reviravolta aproveitada por oportunistas. Em apenas 1.000 anos, a maior parte de um mundo inteiro fica submissa à sua igreja de Yevon.
FFX chega a falar das virtudes da religião organizada, como um forte senso de comunidade, ao lado de um aspecto de hipocrisia. Todas as raças de Spira estão unidas sob Yevon, mas só enquanto seguirem os ensinamentos, e esses ensinamentos parecem pender para a hipocrisia. Os progressistas Al Bhed são rejeitados como pagãos por seu interesse na tecnologia que marcou a Guerra das Machina. A igreja proíbe a machina de forma agressiva.
Então é aqui que Final Fantasy X dá aquela reviravolta:
Ao visitar Bevelle, o epicentro sagrado de Spira, vê-se machina em abundância. Ao que parece, a mera sugestão de usá-la basta para condenar toda uma minoria, mas a machina “oficialmente autorizada” por Yevon, que cumpre papéis idênticos e até bélicos aos daquela que Rikku e companhia vão buscar no fundo do mar, não tem problema. A palavra de Yevon é uma lei que não vale para si mesma: “A machina começou nossos problemas”, é a desculpa, “então a machina não é permitida. Exceto para nós.”
Infelizmente, a Igreja de Yevon resolveu agir por conta própria. Criou sua própria forma de mártir, que evidentemente era o que se consideraria um falso deus. De um jeito curioso, isso nos traz de volta às histórias da Bíblia em que o povo perdia o rumo e, quase sem perceber, adorava aquela ideia distorcida de Deus. Foi essa falsa adoração que levou aquele povo pelo caminho errado. O mesmo se pode dizer de quem, na Igreja de Yevon, usa o medo para controlar seu povo.
No fim, esta é a história deles
No geral, a história de Final Fantasy X foi lindamente escrita, com delicadas referências ao catolicismo e ao budismo.
As camadas mais profundas da história nos fazem pensar em como todo o povo de Spira foi vítima de um falso deus. Infelizmente, eram pessoas seguindo pessoas, em vez de compreenderem de verdade o conceito de sua fayth. É impossível não sentir um carinho sincero pelos personagens desta história enquanto eles enfrentam as pressões da sua realidade.
Há muito a aprender com a jornada de autodescoberta deles em Final Fantasy X. Muitos vão perceber que aprenderam algo com essa história. De todos os jogos da série que já joguei, esta é a história que realmente ficou gravada na minha memória.
Lindo e, às vezes, bastante melancólico, Final Fantasy X merece não só ser jogado, mas também ser compreendido mais a fundo, para se perceber o quanto sua mensagem pode ser profunda.
Scarlett Rose é cosplayer profissional, atriz, modelo publicada e mãe de coelhos.
Quando não está criando armaduras ou montando fantasias, ela pode ser encontrada jogando o videogame mais recente ou curtindo um clássico retrô.
Twitter: @LadyScarlettRse
Meu Instagram pessoal: @LadyScarlettRose
Site do YMG: YourMoneyGeek.com
Twitter do YMG: @yourmoneygeek